Houve um tempo em que o Natal em Cáceres chegava de mansinho, sem palanque, sem disputa, sem rótulos. Um tempo em que a maior preocupação das famílias era escolher a roupa nova da noite de Natal, separar o panetone para trocar com o vizinho e organizar o amigo oculto entre parentes e colegas de trabalho. Um tempo em que a solidariedade não precisava de holofotes, ela simplesmente existia.
Naquela Cáceres de outrora, os coletores de lixo eram lembrados com gestos simples, mas carregados de respeito: uma garrafa de vinho, um agradecimento sincero, um “Deus lhe pague” dito olho no olho. Não havia competição para ver quem distribuía mais cestas básicas, nem a necessidade de transformar a dor alheia em instrumento de visibilidade política. A caridade era silenciosa, humana e genuína.
Hoje, o Natal parece ter sido sequestrado por uma polarização que contamina tudo: relações, comércios, famílias e até a fé. O que antes unia, agora divide. O comércio local, já sufocado por uma pesada carga tributária e por uma crise econômica persistente, enfrenta um ambiente de insegurança e instabilidade. Empreender tornou-se um ato de resistência, enquanto muitos lutam apenas para manter as portas abertas e honrar compromissos básicos.
A celebração, que deveria ser sinônimo de esperança, muitas vezes chega carregada de tensão. Discute-se mais quem ajuda do que como ajudar. Esquece-se que a dignidade não está na exposição, mas no cuidado; não está no discurso, mas no gesto.
E há algo ainda mais profundo e doloroso: as cadeiras vazias. Aquelas que antes eram preenchidas por risadas, conselhos, histórias repetidas e abraços demorados. Pais, mães, avós, irmãos e amigos que já não estão mais à mesa. O Natal, nesses silêncios, ensina que o tempo passa, que a vida é frágil e que o amor precisa ser vivido enquanto é possível. Cada cadeira vazia carrega saudade, mas também memória, e memória é uma forma de permanência.
Talvez seja hora de Cáceres resgatar o sentido essencial do Natal. Menos disputa, menos ruído, menos vaidade. Mais encontro, mais empatia, mais perdão. Que possamos olhar novamente para o outro não como adversário, mas como próximo.
Afinal, o símbolo do Natal não é a abundância, nem a aparência, nem o poder. É o nascimento de Jesus, simples, humilde, transformador. É a lembrança de que a esperança nasce nos lugares mais improváveis e que o amor ainda é a maior revolução possível.
Que cada família cacerense viva um Natal de paz, reconciliação, fé e esperança em tempos melhores. Que o coração esteja mais cheio que a mesa, e que a união seja maior que qualquer divisão.
“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.”
(Isaías 9:6)Doutora Débora Pacheco Quidá
Caceresnse, Advogada, Médica

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