A crise que atingiu o Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), na quinta-feira (29), tem origem em uma investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de desvio de recursos públicos, pagamentos irregulares e movimentações financeiras milionárias.
A operação culminou com a prisão de seu presidente, Sérgio Ricardo de Almeida, e o afastamento de outros três conselheiros, dentro da instituição responsável por fiscalizar as contas do Estado e dos municípios.
Batizada de Operação Tomada de Contas, a investigação aponta indícios de que uma estrutura formada por integrantes da administração do Tribunal e operadores financeiros teria utilizado mecanismos internos de pagamento para movimentar recursos fora dos controles regulares.
A dimensão financeira do suposto esquema pode ultrapassar R$ 145 milhões, conforme avaliação apresentada pela Polícia Federal ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).
(foto reprodução) - O montante, entretanto, não corresponde a um prejuízo comprovado aos cofres públicos.
Trata-se de uma referência utilizada na investigação para fundamentar medidas de sequestro patrimonial, diante da possibilidade de que as irregularidades ainda não tenham sido completamente dimensionadas.
Um dos dados mais expressivos levantados pelos investigadores é a identificação de R$ 75,85 milhões em movimentações financeiras consideradas suspeitas entre 1º de janeiro e 22 de outubro de 2025, período de apenas 294 dias.
Também nesse caso, movimentação suspeita não significa necessariamente dinheiro desviado.
Os valores estão sendo analisados para determinar sua origem, seus destinatários e eventual relação com crimes.
COMO COMEÇOU – A investigação teve origem em uma denúncia anônima encaminhada ao Ministério Público Federal (MPF), que apontava possíveis irregularidades na gestão de contratos administrativos do Tribunal.
Segundo a apuração, a presidência do TCE teria utilizado a suspensão de contratos e pagamentos como mecanismo de pressão sobre empresas fornecedoras.
Uma portaria publicada em agosto de 2024 suspendeu temporariamente contratos por 90 dias, sob a justificativa de contenção de despesas.
(foto reprodução) - A medida admitia exceções para serviços considerados essenciais e contratos liberados pela presidência.
A Polícia Federal investiga a suspeita de que determinadas empresas tenham recebido tratamento diferenciado na liberação de recursos e de que parte dos pagamentos pudesse estar condicionada à devolução de valores a pessoas ligadas à administração do órgão.
Essa é uma das linhas centrais da investigação, mas as suspeitas ainda dependem de comprovação judicial.
FOLHA PARALELA – Outra frente da apuração envolve pagamentos realizados a servidores e conselheiros por mecanismos que não integravam a folha salarial regular.
Segundo a Polícia Federal, ordens bancárias avulsas e canais originalmente destinados ao pagamento de fornecedores teriam sido utilizados para transferir recursos a pessoas físicas.
O procedimento teria permitido movimentar valores sem a mesma transparência dos pagamentos oficiais de remuneração, dificultando a identificação dos beneficiários e a fiscalização dos desembolsos.
Os investigadores encontraram divergências entre os valores registrados nos sistemas de transparência e os créditos identificados em contas bancárias de investigados.
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A suspeita é de que esses pagamentos integrassem uma estrutura paralela de distribuição de recursos, com participação de servidores, dirigentes e operadores responsáveis por sacar e movimentar o dinheiro.
SAQUES MILIONÁRIOS – Um dos pontos que chamaram a atenção dos investigadores foi a frequência de retiradas de grandes quantias em espécie.
Somente em relação ao presidente afastado Sérgio Ricardo, a Polícia Federal identificou aproximadamente 150 operações de saque, que somaram R$ 15,6 milhões entre janeiro e outubro de 2025.
Parte das retiradas teria ocorrido em uma agência bancária instalada nas dependências do próprio Tribunal.
A investigação também atribui à então secretária-executiva Roseli Loss participação relevante na movimentação dos recursos. Segundo os investigadores, ela realizava saques em contas vinculadas ao presidente e teria atuado na circulação de valores.
A Polícia Federal procura esclarecer o destino do dinheiro retirado, a relação entre os saques e os pagamentos considerados irregulares e a eventual participação de outros beneficiários.
PRISÕES E AFASTAMENTOS – A operação foi autorizada pelo ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça, e mobilizou mais de 180 policiais federais em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo.
(foto reprodução) - Foram cumpridos seis mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão.
Além de Sérgio Ricardo, foram presos o consultor jurídico-geral do TCE-MT, Grhegory Paiva Pires Moreira Maia; a secretária-executiva Roseli Loss; o servidor Adriangelo Barros Antunes; e os advogados Felipe José Glinke e Gustavo Fernandes da Silva.
Os conselheiros Guilherme Maluf, José Carlos Novelli e Alisson Alencar foram afastados de suas funções.
O conselheiro aposentado Valter Albano, que exercia atribuições vinculadas à fiscalização, também foi alcançado pelas medidas judiciais.
As prisões são preventivas, destinadas a resguardar a investigação, e não representam condenação dos envolvidos.
DINHEIRO E BENS – No balanço divulgado na sexta-feira (30), a Polícia Federal informou ter apreendido aproximadamente R$ 5,08 milhões em dinheiro, considerando valores em reais e moedas estrangeiras.
Também foram recolhidos 31 veículos, 167 relógios de luxo, 112 garrafas de vinho, 16 armas de fogo, 6.512 munições e 27 aparelhos celulares.
Os bens serão analisados para verificar sua procedência e eventual relação com as irregularidades investigadas.
A quantidade de dinheiro e objetos apreendidos, embora expressiva, não permite concluir que todo o patrimônio tenha origem criminosa.
CONTROLE DO TRIBUNAL – Além das prisões, o STJ impôs medidas cautelares a outros investigados para evitar interferências nas apurações.
Entre as determinações estão a proibição de acesso às dependências e aos sistemas do TCE, restrições de contato entre os envolvidos e entrega de passaportes.
O Tribunal também deverá preservar registros de pagamentos, informações funcionais, ordens bancárias, e-mails institucionais, imagens de câmeras e dados de acesso aos sistemas.
Outra determinação obriga o TCE a encaminhar periodicamente informações sobre ordens bancárias avulsas destinadas a pessoas físicas, acompanhadas das respectivas justificativas.

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As medidas buscam impedir a destruição de provas e permitir que os investigadores reconstruam o caminho percorrido pelos recursos.
CRISE INSTITUCIONAL – A operação provocou uma situação inédita na administração da Corte de Contas.
Com quatro conselheiros titulares afastados, o Tribunal dispõe de apenas três auditores substitutos em exercício, número insuficiente para preencher todas as vagas abertas.
O comando interino ficou com o conselheiro Waldir Teis, que terá de avaliar alternativas para preservar o funcionamento do plenário e a continuidade dos julgamentos.
O ministro Og Fernandes determinou que a instituição informe ao STJ sua composição e o quadro de auditores disponíveis.
A dificuldade ocorre porque, em 2022, o número de cargos de auditor substituto foi reduzido de sete para três, deixando quatro profissionais em disponibilidade.
O QUE FALTA ESCLARECER – Apesar do volume de informações já divulgado, a investigação ainda precisa responder a questões fundamentais: quanto dinheiro público foi efetivamente desviado, quem recebeu os valores, quais contratos foram utilizados nas supostas irregularidades e qual foi a participação individual de cada investigado.
Também será necessário estabelecer se as movimentações financeiras identificadas correspondem a pagamentos legítimos, operações sem justificativa administrativa ou recursos provenientes de crimes.
A Polícia Federal investiga possíveis delitos contra a administração pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Até o momento, não há condenação judicial relacionada aos fatos apurados na Operação Tomada de Contas.
O caso expõe uma crise especialmente grave porque envolve justamente o órgão encarregado de examinar a legalidade das despesas públicas e fiscalizar a aplicação dos recursos dos contribuintes.
Mais do que esclarecer o destino de milhões de reais, a investigação coloca em discussão os mecanismos internos de controle, transparência e fiscalização da própria instituição que deveria zelar pelo uso correto do dinheiro público em Mato Grosso.
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