A Inteligência Artificial (IA) é a nova aliada do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT) no enfrentamento das deepfakes e no monitoramento e detecção de conteúdos falsos que levam à desinformação. GuaIA é o nome da plataforma digital integrada de Inteligência Artificial desenvolvida especificamente para o combate à desinformação no contexto da Justiça Eleitoral brasileira e que, a partir de agora, será adotada pelo TRE-MT para as Eleições Gerais de 2026. A ferramenta foi apresentada nesta terça-feira (7) ao pleno da instituição, magistrados, servidores, dirigentes, estagiários, representantes das forças de segurança e veículos de imprensa.
O GuaIA é resultado de um Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado com a Universidade Federal de Goiás (UFG) e o Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO), para o desenvolvimento dessa ferramenta. O projeto, que nasceu em 2024, permite que o sistema atue em várias frentes: na veracidade das informações, na detecção de desinformação, na verificação de conteúdos, no monitoramento em redes sociais e no combate às deepfakes, nome dado a conteúdos digitais (vídeos, áudios e imagens) criados ou alterados com o uso de IA para mudar a versão original daquele produto.
“Todos da Justiça Eleitoral devem conhecer a ferramenta e trabalhar profundamente nela para serem multiplicadores de conhecimento e dos resultados que ela produzir. O GuaIA é o sistema oficial do TRE-MT e foi escolhido após muita pesquisa e sondagem pelo setor de Tecnologia da Informação do TRE-MT. Tamanha a importância desta cooperação, que ela foi compreendida pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) como uma boa iniciativa, recomendada pelo ministro Kassio Nunes Marques. É um grande passo para a Justiça Eleitoral de Mato Grosso no enfrentamento das deepfakes por eleições transparentes, limpas e seguras”, disse a desembargadora Serly Marcondes Alves, presidente do TRE-MT.
O lançamento da plataforma trouxe a Cuiabá o professor, doutor e pesquisador Eliomar Araújo de Lima, do Instituto de Informática da Universidade Federal de Goiás (INF/UFG), coordenador do GuaIA. Em sua exposição de apresentação da ferramenta, ele informou que 94% dos usuários da internet consomem conteúdo incorreto nas redes sociais e 67% deles já compartilharam informações incorretas, de acordo com indicadores da “The Digital Cooperation Organization” (2023). Outro dado trazido pelo pesquisador é que hoje 56% dos conteúdos digitais no mundo são gerados por IA.
“As pessoas hoje, mais do que nunca, apresentam um comportamento na vida real e outro, bem diferente, na vida social, que é compartilhado numa plataforma digital. E tem, além de tudo isso, o ‘efeito manada’ em que, infelizmente, as pessoas se deixam levar, compartilhando e disseminando desinformação, discurso de ódio, discurso antidemocrático, enfim, procurando de alguma forma desestabilizar a nossa condição social, a própria Justiça Eleitoral e o quanto ela está bem-aparelhada. O grande desafio agora é levar toda essa estrutura para as plataformas digitais”, destacou o professor Eliomar Araújo de Lima.

(Equipe do TRE-MT visita o laboratório do INF/UFG, em abril de 2026, durante o Enastic Elelitoral, em Goiânia (GO))
Treinamento e Interface
O secretário de Tecnologia da Informação (TI) do TRE-MT, Leon Santos Filho, explica que o GuaIA tem papel de uma interface por meio do navegador, na qual o usuário vai logar com sua autenticação, de acordo com o perfil que pode ser de analista ou de curador. No caso de um analista, ele vai fazer a verificação do conteúdo que precisa ser avaliado e analisado. De acordo com o secretário, 12 servidores do TRE-MT receberão treinamento para atuar na checagem do GuaIA. Eles são das áreas de Tecnologia da Informação, Secretaria Judiciária, Assessoria de Comunicação (Ascom), além dos gabinetes.
“Esse arquivo (conteúdo) é transmitido para a nuvem do GuaIA e passa por um processo de reconhecimento de padrões, comparando-o com padrões previamente treinados, com informações relacionadas ao estado de Mato Grosso particularmente, de modo que possa identificar qual é o grau de desinformação que contém aquele arquivo que foi encaminhado. A decisão se vai dar continuidade a algum eventual processo de investigação ou se vai simplesmente tomar uma decisão em algum outro sentido é do magistrado, orientado pelo analista com base nas informações que essa ferramenta vai trazer”, resumiu o titular da TI.
Proteção do Eleitor
A juíza Glenda Moreira Borges, coordenadora do Gabinete da Propaganda do TRE-MT, observou que o momento no Brasil e no mundo exige o uso de IA para identificar conteúdos gerados por IA, face à dificuldade de reconhecer conteúdos produzidos de forma sintética. O uso da ferramenta, de acordo com ela, será fundamental para o trabalho de análise das denúncias relativas à propaganda eleitoral. Glenda Borges acredita que o GuaIA é apoio à Justiça Eleitoral na identificação de riscos informacionais relacionados ao processo eleitoral, oferecendo uma visão estruturada das ameaças digitais.

(Serly Marcondes Alves diz que é uma ferramenta por eleições limpas, transparentes e seguras) - “Como o gabinete vai receber denúncias e vídeos, precisamos que essas informações sejam verificadas, porque a grande discussão é a desinformação. A gente quer que o eleitor, figura central do processo democrático, ao fazer sua escolha, tenha consciência de que aquilo é verdade. A gente está aqui para poder apurar se a notícia, o vídeo ou a informação é verdadeira ou não. E o sistema GuaIA vem para isso, uma ferramenta de inteligência artificial para que a gente desvende se aquela informação, aquele vídeo é verdadeiro, se aquela fala realmente saiu daquela pessoa”, enfatizou a magistrada, que também é a ouvidora eleitoral do TRE-MT.
Outros órgãos
O Ministério Público de Goiás (MP-GO) e os Tribunais Regionais Eleitorais de Goiás (TRE-GO) e Bahia (TRE-BA) já utilizam a ferramenta na organização e fiscalização das eleições em seus respectivos estados, assegurando processos eleitorais transparentes, seguros e dentro da legalidade. Em 2025, o GuaIA foi o vencedor da categoria Tecnologia Judicial Inovadora – Subcategoria Ideias Inovadoras do 2º Prêmio de Inovação do Poder Judiciário, concedido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
O GuaIA nasceu de um projeto de pesquisa e desenvolvimento fruto da parceria entre a UFG e o TRE-GO por uma ferramenta inovadora destinada a monitorar e combater a disseminação de desinformação durante as eleições. Idealizado em 2023, iniciou-se por meio de uma parceria estratégica com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), resultando no desenvolvimento de uma ferramenta de inteligência artificial (IA) de checagem semiautomatizada de fake news.

(Coordenador do GuaIA, professor Eliomar Araújo de Lima, do INF/UFG, apresenta a plataforma integrada no Pleno do TRE-MT)
Homenagem
O nome GuaIA faz alusão aos “Goyá”, povos indígenas que habitaram, antes da colonização, a região central do país, onde hoje é o estado de Goiás.
Jornalista Anderson Pinho
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