A Ponte Preta já não perde apenas jogos. Ela vai perdendo, a cada dia, a capacidade de sustentar qualquer esperança.
O roteiro da derrota por 2 a 1 para o Criciúma, na noite da última quarta-feira, em um Majestoso novamente esvaziado, com um gol sofrido aos 48 minutos do segundo tempo, não é só cruel. É familiar. Dolorosamente quase esperado por quem acompanha um clube que parece condenado dentro e fora de campo.

(foto reprodução) - Mas, desta vez, o que mais doeu não foi ver um filme repetido na Série B do Brasileiro - e em 2026 como um todo.
Foi ouvir o desabafo de Elvis, ídolo alvinegro, esfregando a realidade do clube na cara de quem ainda insiste em se desconectar dela e relativizar a situação.
Porque ali não falou apenas um jogador indignado. Falou alguém cansado.
E, de certa forma, alguém que traduziu o sentimento de muita gente que está fora do campo. As palavras reforçam o que todos já sabiam, mas, ditas por alguém da representatividade de Elvis, ganham contornos ainda mais relevantes.
Enquanto a bola rolava, a Ponte até tentou resistir ao próprio momento. Reagiu no segundo tempo, buscou o empate, viu um pênalti ser retirado pelo VAR e, por alguns instantes, deu ao torcedor a sensação de que, talvez, fosse possível interromper a sequência de frustrações.
Mas a Ponte de hoje, nem quando melhora, consegue escapar de um fim que virou rotina.
É justamente aí que mora o ponto central: quando até os raros sinais de reação acabam soterrados, fica evidente que o problema é mais profundo do que qualquer tentativa pontual de recuperação.

(foto reprodução) - Quando o gol do Criciúma sai praticamente no último lance, ainda que tenha sido um castigo pelo que o time fez no segundo tempo, não soa como acaso. Soa como consequência de um ciclo em que tudo pesa contra — principalmente o que não aparece no jogo.
Porque o campo, há algum tempo, não consegue esconder o que acontece fora dele. A crise já não é apenas (como se fosse pouco) financeira ou administrativa: é estrutural; de identidade. Em meio aos desmandos e da postura de quem está à frente de uma clube sem rumo, o torcedor já não reconhece mais o próprio time do coração.
A fala de Elvis expõe mais do que revolta. Expõe um ambiente fragilizado, desgastado, cansado de promessas que não se concretizam. Salários atrasados, incertezas acumuladas, uma sensação de abandono que ultrapassa o vestiário e contamina tudo ao redor.
E talvez o trecho mais simbólico não seja nem o tom, mas a insistência na pergunta: até quando isso vai continuar?
Hoje, ninguém tem a resposta.
A Ponte acumula seis derrotas seguidas. São 11 jogos sem vencer, perdendo 10 no período. Apenas oito pontos em 17 rodadas. Está na vice-lanterna da Série B. Já caiu no Paulistão. E parece fadada a mais um rebaixamento.
Mas reduzir tudo a números seria confortável demais. Porque os números explicam a tabela. Não explicam o sentimento.
E o sentimento que fica é de um clube que se distanciou de si mesmo. Que já não consegue oferecer nem estabilidade para quem está ali dentro, nem perspectiva para quem está fora apoiando.
Já não há espaço para discurso vazio. O diagnóstico está escancarado. É preciso atitude de quem realmente se interessa pela Ponte para salvar o que ainda resta.
Quando Elvis cobra, quando se expõe, quando fala em “bagunça” e questiona quem deveria dar respostas, o que aparece não é apenas um problema de gestão. É uma ruptura de confiança.
E isso, no futebol, assim como na vida, costuma ser o ponto mais difícil de reconstruir.

(foto reprodução) - A crítica direta ao presidente Luiz Torrano — sobretudo pela ausência no contato com o elenco — amplia ainda mais a sensação de desconexão entre quem decide e quem tenta, dentro de campo, evitar um desfecho que já se desenha.
O mais duro, talvez, seja perceber que, mesmo nesse cenário, ainda existe tentativa. Ainda existe quem queira ficar, quem queira lutar, quem acredite — ou tente acreditar.
Mas há um limite até mesmo no inaceitável - e que já foi cruzado pela Ponte.
Quando o que vem de dentro é um pedido de socorro, um grito de ajuda, um alerta de perigo, como foi a entrevista de Elvis, já não se trata mais de fase.
É algo muito mais profundo. E também muito mais difícil de conter.
Hoje, a luta da Ponte é contra algo que está muito além do futebol. É uma luta por sobrevivência.
FONTE/CRÉDITOS: globo - foto reprodução
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