Domingo, 4 de outubro, cinco da tarde em Brasília, quatro em Cuiabá. As urnas se fecham e o país começa a contar votos. Há, porém, uma conta que não aparece na tela da apuração: a dos que não vieram.
Foram 33,4 milhões. De cada cinco brasileiros aptos a votar, um ficou em casa. A abstenção chegou a 21,08%, a maior desde 1998. Não é acidente. O índice sobe sem interrupção desde 2006, eleição após eleição, governo após governo.
Para medir o tamanho desse silêncio, basta uma comparação. Os dois candidatos que seguem para o segundo turno estão separados por pouco mais de 2,2 milhões de votos. Os ausentes são quinze vezes isso. Se fossem um partido, seriam a terceira força da eleição, e a única sem programa, sem rosto e sem voz.
Mato Grosso não escapa. Com cerca de 22% de abstenção, o estado ficou entre os cinco onde o eleitor mais faltou. Mais de um em cada cinco mato-grossenses abriu mão de escolher, de uma só vez, presidente, governador, senadores e deputados.
Por que se falta? As razões são muitas, e nem todas merecem censura. Há a distância, o transporte que não passa, o título que ficou em outra cidade, a idade. Há o cansaço: décadas de crises e escândalos ensinaram a muita gente que nada muda. E há a troca de gerações. Quem viveu sem poder votar tratava a urna como conquista. Quem nasceu com ela à mão a trata como rotina.
É aqui que a memória de Cuiabá tem algo a dizer. Em 25 de abril de 1984, a Câmara votou a emenda que devolveria ao brasileiro o direito de eleger o presidente. Seu autor era um deputado cuiabano de 32 anos, Dante de Oliveira. A proposta teve 298 votos favoráveis. Precisava de 320. Faltaram 22. Naquela noite, 113 deputados não compareceram ao plenário.
As Diretas não caíram pelo voto contrário. Caíram pela ausência.
Quarenta e dois anos depois, a terra de Dante figura entre as que mais se ausentam. Não há culpa a distribuir, mas há uma pergunta a fazer: o que acontece com um direito quando deixamos de usá-lo?
A democracia é o maior poder que temos como povo. Talvez o único repartido em partes rigorosamente iguais: na urna, o voto do dono da fazenda pesa o mesmo que o de quem nela trabalha. Nenhuma outra instituição nos trata assim. Nem o mercado, nem a fila do hospital.
Esse poder não se defende apenas contra quem o ataca. Defende-se também contra o desuso. Um direito que não se exerce não some de um dia para o outro. Vai ficando leve, até que alguém o leve embora sem que se note.
Escrito com Sara Nadur Ribeiro
Maurício Munhoz Ferraz é assessor do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso e professor de economia
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