Passei por uma calçada recém-reformada, na orla do rio Paraguai, perto da Marinha.
O piso tátil, feito para orientar uma pessoa cega, terminava exatamente em um poste.
O problema não é o poste.
É que esse caminho não nasceu sozinho.
Alguém projetou.
Alguém aprovou.
Alguém executou.
Alguém acompanha a obra.
Durante todo esse tempo, muitas pessoas passaram por ali.
Minha inquietação deixou de ser sobre a obra.
Passou a ser sobre nós.
Costumamos dizer que só percebe “quem sente na pele”.
Mas, desta vez, quem sofrerá as consequências será justamente quem nunca pôde acompanhar a obra.
A pessoa cega confiará no caminho.
Ela precisará dos nossos olhos.
Há pessoas que precisam das nossas mãos.
Outras precisam da nossa voz.
E há aquelas que, antes de tudo, precisam dos nossos olhos.
Acredito que precisamos aprender a olhar de novo. Um olhar capaz de admirar o belo, mas também de perceber o que impede o caminho do outro.
Uma sociedade mais humana começa quando compreendemos que enxergar também é uma forma de cuidar.
Há responsabilidades que pertencem ao cargo. Mas há outras que pertencem à consciência. Uma cidade precisa das duas.
Em que momento deixamos de nos sentir responsáveis pelo que acontece ao nosso redor?
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