Às margens do Córrego da Prainha, onde hoje passa a Avenida Tenente-Coronel Duarte, um imponente sobrado marcou a paisagem de Cuiabá no século XIX. Conhecido como "Palácio das Águias", o prédio foi residência de um comendador rico, abrigou famílias durante a Revolução de 1906 e se tornou o cabaré mais importante da Capital, antes de desaparecer em meio às transformações urbanas.
Construído no Morro da Luz, região ligada ao início da ocupação de Cuiabá, o Palácio das Águias foi o primeiro sobrado da avenida e, por muito tempo, o único naquela parte da cidade.
A construção, que se destacava pela imponência, teve sua história atravessada por momentos de prestígio, festas da elite, prostituição e abandono.

(Palácio das Águias / Imagem colorida com auxílio de IA) - Para o historiador Francisco das Chagas, o prédio permanece na memória cuiabana principalmente pelo período em que funcionou como cabaré. A trajetória, no entanto, começou muito antes de se tornar referência da zona de baixo meretrício.
Embora não tenha registro de uma data exata da construção, o Palácio das Águias surgiu no século XIX.
“Ele ficou conhecido como Palácio das Águias por fazer referência ao Palácio do Catete, que era o palácio do governo federal, no Rio de Janeiro, quando era a capital do Brasil. A sede do governo ostentava umas águias na parte alta do sobrado e foi chamada assim”, afirmou Chagas ao MidiaNews.
O sobrado cuiabano foi habitado, no fim daquele século, pelo comendador Henrique José Vieira, homem de grande fortuna e influência. De acordo com Francisco das Chagas, ele emprestava dinheiro à Província de Mato Grosso e era conhecido por sua caridade.
A importância do comendador ajudou a transformar a residência em um espaço de prestígio, frequentado por pessoas influentes. A construção também chamava a atenção pela arquitetura colonial e pela localização privilegiada.
“Era algo muito chamativo, muito elegante. Entre o Morro da Luz e a Igreja do Rosário, um palácio à beira do Córrego da Prainha. Era magnífico, trazia uma certa imponência para a cidade”, disse o historiador.
O comendador morreu em 1900 e o imóvel permaneceu na família. A filha dele, Henriqueta Vieira Garcia, e o genro, João da Costa Garcia, passaram a morar no sobrado, que se tornou palco de bailes de gala e encontros da elite cuiabana.

(Palácio das Águias) - Conforme relatos reunidos pelo historiador, o espaço recebia festas em uma época em que Cuiabá ainda não tinha clubes. A residência era utilizada para reuniões da sociedade, especialmente por pessoas ligadas às famílias Vieira e Garcia.
Refúgio durante a Revolução de 1906
A história do Palácio das Águias também se cruzou com um dos episódios mais marcantes da política mato-grossense: a Revolução de 1906, movimento que culminou na deposição e assassinato do então presidente do Estado, Antônio Paes de Barros, o Totó Paes.
O conflito foi resultado de disputas políticas e da articulação de opositores ao governo. O senador Generoso Ponce liderou forças que partiram de Corumbá em direção a Cuiabá, com o objetivo de derrubar Totó Paes. A capital acabou cercada e a tensão tomou conta da cidade.
Durante o período, famílias amigas do comendador Henrique José Vieira buscaram abrigo no Palácio das Águias. A importância atribuída ao antigo proprietário fazia com que o local fosse considerado um espaço protegido.
“Muitas pessoas se refugiaram no Palácio. Lá, elas acreditavam ser um local intocável pela importância que tinha o comendador Henrique”, disse o historiador.
O conflito terminou com a morte de Totó, que havia fugido de Cuiabá e foi alcançado por forças oposicionistas na região do Coxipó do Ouro, em julho de 1906.
De residência de gala ao cabaré mais famoso
Após a morte do comendador, o sobrado permaneceu com a família até ser vendido ao empresário Alfredo de Campos. Foi a partir daí que o imóvel passou a ter quartos alugados e se transformou em um dos principais endereços da prostituição em Cuiabá.

(matéria de opinião publicada em 1984 pelo Jornal do Dia)
De acordo com Chagas, Alfredo de Campos sublocava os cômodos para mulheres que atuavam como cafetinas. Entre elas estava Sha Rosa, lembrada por reunir mulheres vindas de diferentes lugares.
Segundo o historiador, o sobrado se tornou o cabaré mais importante da cidade e ficou associado ao início da Zona de Baixo Meretrício na região central.
“O Palácio das Águias passou a ser mais lembrado como cabaré do que como um lugar de gala, de elegância, de festas...”, afirmou.
A região também concentrava outros pontos de prostituição, como o Bar Colorido. Com o passar do tempo, a atividade se espalhou por ruas do bairro Baú, até se deslocar para a região do Ribeirão da Ponte.
Uma publicação do Jornal do Dia, de 1984, recuperou a memória do local em versos que relacionavam o Palácio das Águias à prostituição e a outros pontos conhecidos da cidade:
“Palácio das Águias amor. Pra quem tem dinheiro. Mas se a grana é curta iôIô. Beco do Candeeiro. E o soldado conhece bem. De dia é Maria Taquara e de noite é Maria meu bem”.

(Palácio das Águias degradado) - O trecho faz referência ao período ao afirmar que aqueles interessados em serviços sexuais que não podiam pagar pelo atendimento oferecido pelas prostitutas no sobrado encontrariam uma opção mais barata na região do Beco do Candeeiro.
O local funcionou como um cabaré até quase a sua demolição, na década de 1970.
A demolição e a perda da memória
Segundo o historiador, o imóvel de Alfredo de Campos foi vendido nesta época para uma empresa chamada Postop. Com o passar dos anos, o prédio começou a se deteriorar e a parte da frente caiu.
Relatos históricos obtidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) apontam que ele foi demolido durante as obras de canalização e abertura da Avenida da Prainha.
O historiador afirmou que o local foi desapropriado pela gestão do então prefeito Dante de Oliveira para ser transformado em área verde. Em 1975, uma matéria de opinião publicada pelo jornal O Estado de Mato Grosso criticou o estado de abandono do antigo sobrado e a sua destruição completa para a construção da avenida.
“Em atendimento a justas ponderações relativas à necessidade de serem preservadas as tradições e a pureza paisagística de Cuiabá, foram baixadas normas quanto ao gabarito de construções na avenida da Prainha. Entretanto nessa mesma avenida é encontrada uma verdadeira monstruosidade, ferindo violentamente a estética paisagística”, foi escrito sobre a degradação do sobrado.

(Os patrimônios são esquecidos - matéria de opinião publicada em 30 de julho de 1985 pelo Jornal do Dia)
Na época, o jornal fazia referência a pessoas em situação de vulnerabilidade que viviam no local.
“Trata-se de um terreno amplo, altamente valorizado pela sua localização, que poderá ser utilizado para uma construção que venha contribuir tanto para o embelezamento da avenida da Prainha como também minorar o déficit habitacional”, acrescentou a reportagem da época.
A perda do sobrado é apontada pelo historiador como um prejuízo para a memória da cidade. Para ele, a destruição de construções históricas compromete a possibilidade de transmitir às futuras gerações os registros da formação urbana e social de Cuiabá.
“Isso é preocupante, porque quando uma cidade não preserva patrimônios, os imóveis ou seja lá o que for, que venha a contar a nossa história, é uma perda irreparável para as futuras gerações”, afirmou.
A importância do Palácio das Águias também está ligada ao lugar onde foi construído. O sobrado ficava entre o Morro da Luz e a Igreja do Rosário, próximo à área das Lavras do Sutil, considerada um dos grandes veios auríferos da região.
“O Palácio das Águias foi construído exatamente onde começou Cuiabá”, disse das Chagas.
O historiador considera que o prédio ocupava o marco inicial da urbanização da Capital, em uma área que concentrava a história da mineração e das primeiras ocupações.
Como está a região hoje
A área onde ficava o Palácio das Águias integra o entorno do Conjunto Arquitetônico, Urbanístico e Paisagístico de Cuiabá, tombado pelo Iphan em 1992. A região do Morro da Luz e do Largo do Rosário, conhecido como Ilha da Banana, está sujeita a regras específicas para intervenções que possam afetar a preservação do patrimônio cultural.
O Iphan informou ao MidiaNews que acompanha as obras da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Sinfra) na região, assim como as intervenções feitas para o BRT em Cuiabá e Várzea Grande.
O órgão afirmou que uma pesquisa arqueológica está em andamento nos trechos autorizados para obras e que as demolições na região da Ilha da Banana estão autorizadas apenas nos pontos em que foi comprovada a posse dos imóveis pelo Governo do Estado.
Segundo o instituto, as obras devem observar as normas de proteção ao patrimônio arqueológico porque a região abriga o complexo arqueológico da Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, relacionado às primeiras ocupações do território que viria a formar Cuiabá.
Já a Secretaria de Estado de Infraestrutura (Sinfra), afirmou que a área da Ilha da Banana deverá integrar futuramente o projeto do Largo do Rosário, espaço previsto para ficar ao lado das igrejas de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário. A proposta foi incluída no primeiro contrato do BRT, que acabou rescindido.
A Secretaria informou que ficou definido que o Largo do Rosário seria executado separadamente, mas ainda não há projeto concluído nem licitação para a obra.

(foto reprodução) - Ainda assim, mesmo sem a construção física, o Palácio das Águias permanece como parte da memória de Cuiabá.
Para Francisco das Chagas, o sobrado foi muito mais do que uma residência ou um cabaré. A sua trajetória atravessou diferentes momentos da cidade, da formação urbana às mudanças sociais, e a demolição representou a perda de um patrimônio que ajudava a contar essa história.
“Cada vez que um patrimônio histórico vai ao chão ou é demolido, causa um estrago muito grande na história, do passado e na que vai ser contada no futuro”, finalizou.
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