O Brasil precisa de médicos! Todos os países do mundo precisam formar a quantidade necessária de profissionais da medicina para atender as demandas das populações que os integram. Mas o fim não justifica os meios!
A polêmica que movimenta opiniões de todas as classes nos dias de hoje, e pelos próximos dias, semanas e meses, está relacionada com os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica, o famoso ENAMED, realizado em 2025. Do total de escolas médicas avaliadas, aproximadamente um terço não atingiu a nota considerada satisfatória.
Nos últimos anos temos visto florir como “o alecrim dourado que nasceu no campo sem ser semeado” , inúmeras faculdades oferecendo um número não pequeno de vagas para estudar medicina, com processos de seleção facilitados, em municípios sem estrutura de saúde (hospitais, unidades de saúde, rede de atenção à saúde) completa, sem um quadro de professores capacitados, com pouca ou nenhuma formação pedagógica, e processos de ensino-aprendizagem mal coordenados e dissonantes das diretrizes nacionais curriculares (DCNs).
Como professor da graduação de Medicina, preceptor do Internato (no último semestre da faculdade), médico de família e comunidade e especialista em competências pedagógicas para preceptoria e docência, tenho as minhas considerações sobre o exame, sobre os resultados, e sobre a formação.
Sou da opinião que uma prova, apenas uma nota, uma avaliação teórica, onde o estudante escolhe a melhor resposta, nem sempre por conhecimento, e sim por reconhecimento de qual alternativa parece mais correta, não é a melhor forma de avaliar. De fato, uma prova teórica apenas avalia conhecimentos, e para ser médico é necessário Competência, da qual o conhecimento é uma parte, assim como as habilidades e as atitudes. Uma prova escrita não consegue avaliar habilidade e atitudes. Como médico formado no exterior, para poder exercer a medicina no Brasil teve de me submeter à prova conhecida como REVALIDA, composta por duas provas teóricas e uma prova prática, com a capacidade de avaliar conhecimentos através de questões de múltipla escolha, assim como habilidades e atitudes na execução de vários atendimentos médicos simulados. Se o ENAMED quer realmente avaliar quão competentes são os estudantes do último semestre da faculdade de medicina, terá de se reinventar no formato da prova de revalidação de diplomas estrangeiros.
Ainda, no quesito conhecimento, o exame em questão conseguiu apontar uma parte do problema. Uma boa parcela dos estudantes avaliados não tem os conhecimentos necessários. Mas, quem é o culpado por isso? Não dá para colocar esse peso nas costas dos estudantes, e sim, no processo formativo.
É fundamental ver e rever como está sendo conduzido o ensino, começando pela seleção dos melhores estudantes, passando pela experiência docente e a formação pedagógica de professores e preceptores, pela qualidade e quantidade de oportunidades e campos de estágio e pela coordenação dos cursos e a adequação dos projetos pedagógicos com as Diretrizes anteriormente mencionadas.
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