Sessenta quilos de drogas escondidos na cabine de um caminhão-tanque, uma carga recebida em Campo Verde e uma viagem que terminaria em Goiás. A apreensão realizada em General Carneiro na sexta-feira (21) acrescentou mais um episódio a uma sequência de interceptações que coloca o eixo rodoviário do Araguaia entre os pontos de atenção no combate ao tráfico interestadual em Mato Grosso.
A ocorrência mais recente reuniu policiais militares de Mato Grosso e Goiás e a Polícia Federal. Foram encontrados aproximadamente 30 quilos de pasta-base de cocaína e 30 quilos de maconha, avaliados pelas forças de segurança em R$ 1,8 milhão. Os tabletes estavam dentro de caixas de papelão na cabine do veículo.
O motorista, de 39 anos, foi preso em flagrante. Segundo o relato dele registrado pela polícia, a carga havia sido recebida em Campo Verde, a cerca de 140 quilômetros de Cuiabá, e deveria ser entregue no Estado de Goiás. O homem afirmou ainda que receberia dinheiro pelo transporte.
O caso deverá agora esclarecer uma parte que a apreensão não respondeu: de onde efetivamente vieram os entorpecentes antes de chegarem a Campo Verde, quem organizou o transporte e quem receberia a carga em Goiás.
A passagem por General Carneiro, entretanto, não é um dado isolado. O município está próximo de Barra do Garças, no eixo de ligação com Goiás, e a região acumula apreensões ao longo deste ano.

(reprodução)
CARGAS SE REPETEM
Levantamento feito pelo DIÁRIO em registros da Polícia Rodoviária Federal mostra que somente em diferentes operações de 2026 foram apreendidas centenas de quilos de drogas na região de Barra do Garças.
Em 10 de fevereiro, a PRF encontrou 65,9 quilos de entorpecentes em um caminhão abordado no km 17 da BR-070. Havia maconha, cloridrato de cocaína e pasta-base. O motorista alegava transportar sucata, mas não apresentou documentação fiscal.
Pouco mais de um mês depois, em 26 de março, outra abordagem praticamente no mesmo ponto da BR-070 terminou com a localização de 22,1 quilos de pasta-base de cocaína e cerca de meio quilo de maconha escondidos no tanque de combustível de um carro.
Nesse caso, o destino da droga ficou explícito: a motorista, de 23 anos, declarou aos policiais que levaria os entorpecentes para Goiânia e receberia pelo transporte.
Em 30 de abril, novamente no km 17 da BR-070, uma fiscalização de um caminhão-trator com semirreboques resultou na apreensão de outros 61,1 quilos de pasta-base de cocaína. Foram necessários procedimentos de inspeção na estrutura do veículo para localizar 59 tabletes escondidos em compartimentos preparados na lataria.
Duas semanas depois, em 14 de maio, uma operação iniciada na BR-070 terminou com mais de 190 quilos de drogas apreendidos. O motorista de um Jeep Compass tentou utilizar rotas alternativas para evitar a fiscalização, levando a um cerco que envolveu as BRs 070 e 158 e terminou em uma estrada não pavimentada.
A sequência ajuda a explicar por que as forças de segurança mantêm atenção especial sobre a região.
CAMINHÕES, CARROS E ÔNIBUS
As ocorrências também mostram que não existe um único padrão de transporte.
As drogas já foram encontradas em caminhões, automóveis e ônibus interestaduais. Em janeiro, por exemplo, uma fiscalização em um ônibus que fazia a linha Ijuí (RS)–Redenção (PA) resultou na apreensão de mais de 19 quilos de maconha, pasta-base e skunk em Barra do Garças.
Em maio, a Força Tática apreendeu em General Carneiro 11 tabletes de skunk transportados por uma mulher em um ônibus. Segundo a Secretaria de Segurança Pública, ela pretendia levar os entorpecentes para o Pará.
O padrão indica que o corredor não atende apenas cargas destinadas a Goiás. A posição rodoviária da região permite conexões em diferentes direções.
Barra do Garças é cortada pela BR-070, ligação direta com Goiás, e está conectada também à BR-158, outro eixo de circulação pelo Araguaia. As próprias operações policiais deste ano têm utilizado as duas rodovias para cercos e interceptações.
CAMPO VERDE ENTRA NO MAPA
A apreensão de sexta-feira acrescenta um componente novo à investigação: Campo Verde.
O motorista não declarou ter buscado os entorpecentes na fronteira internacional. Disse que os recebeu já dentro de Mato Grosso e deveria transportá-los para outro Estado. Isso levanta a hipótese de uma operação dividida em etapas, com diferentes responsáveis por trechos do percurso.
Não há, porém, elementos públicos suficientes para afirmar que Campo Verde funcione de maneira permanente como centro de distribuição. Essa definição dependerá da investigação da Polícia Federal.
Há registros anteriores de apreensões no município. Em agosto de 2024, por exemplo, a PRF encontrou drogas em uma encomenda transportada por ônibus durante fiscalização na BR-364 em Campo Verde. A ocorrência envolvia maconha, pasta-base e outra substância.
A investigação da carga apreendida agora poderá indicar se Campo Verde foi apenas o local escolhido para uma entrega específica ou se integra uma estrutura logística maior.
OPERAÇÃO ENTRE DOIS ESTADOS
Outro elemento da apreensão chama atenção: a abordagem não nasceu de uma fiscalização aleatória.
Segundo as forças de segurança, informações foram compartilhadas entre equipes de Mato Grosso e Goiás e a Polícia Federal antes da interceptação do caminhão-tanque. Participaram da operação unidades da Força Tática de Mato Grosso, do Comando de Operações de Divisas e da Rotam de Goiás, além da PF de Barra do Garças.
Isso permitiu que o veículo fosse identificado e abordado por volta das 12h50 em General Carneiro.
O motorista e os entorpecentes foram encaminhados à Polícia Federal em Barra do Garças. A partir daí, a investigação terá de buscar os dois extremos da operação: quem entregou os 60 quilos em Campo Verde e quem aguardava a carga em Goiás.
A resposta poderá revelar se a apreensão interrompeu apenas uma viagem ou uma das etapas de uma rota mais ampla que utiliza o centro de Mato Grosso e o corredor rodoviário do Araguaia para abastecer outros Estados.
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