Esqueça as partidas de seleções campeãs do mundo, como Brasil, Alemanha, França ou Espanha. Um dos jogos mais esperados desta Copa vem do grupo G, entre sérvios e suíços.
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O confronto desta sexta-feira (2), pela última rodada da fase de grupos, vai muito além das quatro linhas do campo, e envolve outros países, provocações, tensões geopolíticas, e pitadas de patriotismo.
Em 2018, na Copa do Mundo passada, Sérvia e Suíça também se encontraram pela primeira fase do Mundial.
Em campo, os suíços se deram melhor, venceram por 2 a 1, e passaram de fase. No entanto, o jogo ficou marcado pela polêmica comemoração dos gols.
Na celebração dos gols suíços, tanto Shaqiri, quanto Xhaka, fizeram referência ao símbolo da bandeira da Albânia, uma águia negra de duas cabeças, usando as mãos.
Principais referências técnicas da seleção em 2018, e em 2022, Shaqiri e Xhaka possuem descendências albanesas, o primeiro, inclusive, nasceu no Kosovo, e ambos vem de famílias que se refugiaram na Suíça, fugindo da guerra na Iugoslávia e da perseguição sérvia contra os albaneses.
"Sinceramente, para mim o rival não importava. O gol e a comemoração eram para meu povo, que sempre me apoiou, para minha pátria e para os meus pais”, disse Xhaka, em entrevista após a partida.
Ex-membro da Iugoslávia, o Kosovo, uma região autônoma, tem cerca de 90% da sua população de origem albanesa.
Na década de 90, com a desintegração da Iugoslávia, o território passou a ser comandado pela Sérvia, que promoveu perseguições aos albaneses. Após anos de conflitos sangrentos, a independência de Kosovo foi aprovada em 2008, em uma assembleia no país.
"As questões envolvendo todos os países que formavam a Iugoslávia, dentre eles Montenegro, Macedônia, além do próprio Kosovo e da Sérvia, todos esses países vivem uma atenção constante. Uma grande guerra civil aconteceu na região, e ela acabou sendo resolvida com algumas divisões entre os países que ocupavam a Iugoslávia, mas de qualquer forma o problema ainda persiste", explica o professor de relações internacionais na FMU, Manuel Furriela, sobre a situação geopolítica atual da região dos Bálcãs, no sudeste da Europa.
O especialista também explica que o gesto feito pelos atletas irritou os sérvios pois foi uma forma de reconhecer a independência do Kosovo, algo considerado uma "afronta" no país, mas que é apoiado oficialmente pela Albânia.
"O símbolo da Águia simboliza um ato de independência do Kosovo, já que a maior parte da população naquele território é de origem albanesa. Então a relação da Albânia, é uma questão de identidade nacional, é uma reafirmação de que o Kosovo pode ser independente, então é um símbolo de nacionalidade para os Kosovares".
A comemoração, inclusive, rendeu aos dois jogadores multas impostas pela Fifa, por “comportamento contrário aos princípios do fair play durante a comemoração de gols”, em razão da referência política.
A multa de 10 mil francos suiços (aproximadamente R$ 54 mil, na conversão de valores), foi paga por um grupo de empresários kosovares, na época.
Para reaflorar a polêmica, os jogadores da Sérvia, antes do primeiro jogo deste Mundial, contra o Brasil, colocaram uma bandeira do mapa do Kosovo coberto com a bandeira sérvia, com a frase "sem rendição", escrita em albânes.
A Fifa abriu uma sindicância disciplinar para investigar a bandeira.
Quatro anos depois após a comemoração, Xhaka colocou panos quentes na história, durante entrevista na zona mista suiça após derrota para o Brasil.
"Este jogo foi há quatro anos, e não há nada mais por trás disso. Nós somos a Suíça, eles são a Sérvia. É isso. Estamos aqui para jogar futebol. Eles, também".
Albânia e Kosovo nunca conseguiram se classificar para uma Copa após a independência dos países, mas, de alguma forma, fazem parte do Mundial, graças aos atletas que lembram de suas raízes.

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