Comentários recorrentes garantiam que, durante as grandes greves do ABC nos anos 1980, Lula deixava um garrafão de cachaça num bar próximo ao palanque e fazia intervalos para beber. Isso é o que disse a dona do boteco a um repórter de jornal.
Depois, já como candidato a presidente, segundo uma reportagem da Folha de São Paulo, reproduzindo o texto do New York Times, Brizola declarou publicamente:
“Quando eu fui candidato a vice-presidente de Lula, ele bebia muito.”
A reportagem registra ainda que Brizola dizia estar preocupado com os efeitos desse hábito sobre a saúde do presidente. Também afirmou ter advertido Lula sobre bebidas destiladas.
Bolsonaro, anos depois, repetidamente fez alusões ao seu (dele) consumo de álcool durante entrevistas e discursos.
É verdade que estes depoimentos não podem ser comprados pelo valor de face, porque Brizola e Bolsonaro — ambos falastrões — eram adversários políticos do Lula.
De repente, eles estavam exagerando para tentar desmerecer o candidato contrário.
Estou voltando a essas notícias antigas porque, neste começo de julho, circulou na mídia — e não era fake news — fotografia do presidente mostrando o dedo do meio em riste e gritando “aqui, pra vocês”. Dirigia-se às “zelites” que, segundo ele, desprezam os pobres.
Foi uma cena grotesca. Vestido de terno e chapéu pretos e com os olhos arregalados, se deleitava com os xingamentos e a reação positiva da plateia.
Ocorreu-me que, em condições normais, dificilmente um governante desrespeitaria tão acintosamente a solenidade e a liturgia do cargo. Este gesto absurdo daria razão ao Brizola e ao Bolsonaro sobre o uso exagerado de álcool?
O presidente está descompensado, um pouco mais do que sempre foi. Na verdade, o destempero e a deselegância já se tornaram sua marca registrada, mas nunca tinha chegado ao extremo de fazer gestos obscenos diante dos seguidores.
Nossa safra de presidentes, ex-presidentes e de suas crias está entre as piores das últimas décadas. O presidente atual, que também é ex-presidente, esteve preso em Curitiba, condenado por desvio de dinheiro público. Segundo a justiça, ele recebeu benefícios (Triplex do Guarujá e Sítio de Atibaia) para favorecer empreiteiras que roubavam a nação.
O Fernando Collor, o megalômano que foi defenestrado por um impeachment, está atualmente preso, condenado também por receber dinheiro indevido.
O Bolsonaro cumpre pena, condenado pelo STF por um golpe de estado planejado que só não prosperou porque o Exército, cumprindo sua função constitucional, não topou a parada.
Para evitar que continue a constranger a sociedade brasileira, seria interessante a Janja e o Sidônio Palmeira (chefe da comunicação do governo) fazerem um briefing com ele antes de qualquer discurso.
Mas nem tudo está tão ruim que não possa piorar: a julgar pelos movimentos desastrados da direita, é possível que tenhamos de aguentar o presidente por mais quatro anos.
Enquanto isso os pais que querem dar boa educação aos filhos, devem ensinar-lhes que mostrar o dedo do meio é obsceno, grosseiro e vulgar, mesmo que o líder maior da Nação ache que é um gesto normal e apropriado para qualquer ambiente.
Renato de Paiva Pereira é empresário e escritor.
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