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Quarta-feira, 28 de Outubro de 2026
O “Demos” acima de tudo.

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O “Demos” acima de tudo.

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Calma, (e)leitor! O “demos”, do título, de origem grega, refere-se à primeira parte da palavra “demo/cracia”, e significa “povo”. “Cracia”, de “kratos”, indica a forma de “poder”. Na aglutinação, a completude da ideia é a do “poder que emana do povo”.

Essa incrível construção para a convivência regrada dos seres humanos adveio, paradoxalmente, das ações de duas divindades gregas, ambas associadas à fundação e aos debates da democracia em Atenas: 1ª) Zeus Agoraios, protetor da ágora e da assembleia livre.

“Ágora” era o coração político, econômico, social e cultural da Grécia Antiga); 2º) Peitho, deusa da persuasão e da retórica. Logo, o título acima poderia ser “Vitória da Democracia”, mas achei isso óbvio e insuficiente para este momento, pois vivemos em um Estado laico, no qual as ações humanas devem prevalecer sobre quaisquer intervenções atribuídas a entes sobrenaturais, sejam quais forem eles. Sempre o “povo”, portanto, o “demos”, é quem deve estar acima de tudo. Nada e ninguém mais.  

Isso posto, agora, confesso: com a retumbante, inquestionável e merecida derrota de Flávio/Jair Bolsonaro para os 64.256.232 de eleitores que puderam e foram votar pela manutenção de nossa Democracia, reafirmo que:

a) sou um conservador convicto, mas não na perspectiva do vil conservadorismo da violenta e mentirosa extrema-direita, sempre ancorada na cínica “tríade dogmática” Deus/Pátria/Família (DPF);

b) sou um conservador da Democracia, à lá ensinamentos da Grécia Antiga, atualizados pela Revolução Francesa (1789), que elaborou as bases teóricas e práticas fundamentais do moderno Estado Democrático de Direito;

c) sou um conservador que luta, junto com outros brasileiros – patriotas de verdade, e não estúpidas marionetes de um ardiloso jogo político internacional – pela manutenção do status quo constitucional contra qualquer autoritarismo, seja em nosso país ou alhures;

d) sou um conservador que abomina aquelas criaturas ignorantes até a raiz do cabelo que clamam, em vias públicas e em redes sociais, por intervenção dos EUA em “Terras Brasilis”.

E para sustentar esse tipo de conservadorismo que sempre abracei, há de se fazer de tudo e um pouco mais do que for necessário. Fazer apenas o possível, diante de tantos e explícitos riscos, pode ser pouco. Mas por que, na contramão do que optou a maioria, o clã bolsonarista, preterindo todos os aliados, tentou voltar ao topo do poder por meio de um dos filhotes do mito golpista, ora condenado e presidiário, ainda que em domicílio?

Antes de uma resposta, vale relembrar que o lema DPF foi trazido à nossa “pauta política” por Jair Bolsonaro, que o encontrou nos ensinamentos antidemocráticos de Giuseppe Mazzini (final do séc. 19), e, posteriormente, apropriada pelo fascismo italiano, sob comando de Benito Mussolini, no início do séc. 20. No Brasil, Plínio Salgado, em outubro de 1932, também o utilizou como lema da Ação Integralista Brasileira, um movimento de extrema-direita inspirado no fascismo europeu.

Agora, sim, começo respondendo à lá Lula, único presidente eleito democraticamente quatro vezes para presidir um dos países mais complexos do planeta, conforme já registrava Roger Bastides em seu livro “Brasil, terra de contrastes”: “nunca como antes na história deste país”, faz-se necessário recorrer a cada instante à história, mas não sem observar um detalhe crucial: a “sincronia” – visão focalizada e descontextualizada de tudo – será sempre insuficiente para nossas reflexões hodiernas, que demandam embasamentos na “diacronia”, ou seja, na perspectiva que não desconsidera o passado em relação a um determinado foco/recorte a ser pensado no presente, tampouco se exime de reflexionar (e não especular/palpitar) sobre o porvir.

Isso posto, para a indagação que propus há pouco, vale saber que o lema DPF encontra-se na mesma linha ideológica da Tradição/Família/Propriedade (TFP), onde, de fato, estão os camuflados objetivos dos Bolsonaro; aliás, foi com base na TFP – que Jair pôde conhecê-la desde a infância – que houve a reatualização política do lema DPF.

A título de contextualizar, a TFP nasceu em São Paulo/1960, amparada nos estatutos da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, sob comando de Plínio Corrêa de Oliveira, próximo de um grupo católico responsável pelo O Legionário, jornal que se propunha ser a voz do anticomunismo. Para isso, envolto a contornos quase paramilitares, a TFP cooptava jovens, principalmente das periferias, internando-os na organização, sob rigoroso controle ideológico. Em tais espaços, que nos remetem às clausuras medievais, eram treinados em artes marciais para a luta contrarrevolucionária, anticomunista e inimiga da reforma agrária.

Assim, das siglas DPF e TFP, por mais irônico que possa ser, apenas o “F”, de Família, encontra-se em ambas, desobrigando-nos de qualquer exercício de reflexão. Contudo, as demais letras estão em correspondência direta entre si: o “D”, de Deus, é proporcional ao “T”, de Tradição, posto que a religiosidade do bolsonarismo raiz, ou seja, do que cheira a enxofre, é o que se vincula à lógica do Antigo Testamento, em nada cristão; ao invés do “amai-vos uns aos outros”, reafirma-se a apologia do “dente por dente, olho por olho”. Em suma, é a prevalência do ódio, tal como o reconhecemos no comportamento desumano da maioria dos bolsonaristas assumidos. “Vade-retro”.

Já o “P”, de Pátria, está em correspondência ideológica com o “P”, mas de Propriedade. E é este “P” que é o “X” da questão. Quando Jair perde para Lula (2022) e se recusa a passar a faixa presidencial ao vencedor, orquestrando e incentivando um golpe militar no país, ele nos dá a certeza de querer se apropriar (ser proprietário) do Estado, que embute, pelo menos no imaginário popular, a ideia do “P”, de Pátria.

Nas eleições de agora, Flávio, cujo intelecto pouco se alarga em relação ao do pai, já havia dado a senha para um golpe, mas por dentro: mudar a Constituição em diversos pontos. Com um Congresso e um Senado, que receberão muitos agentes do crime organizado e das milícias como nunca antes na história deste país, nossa condição democrática seria aniquilada em tempo recorde. Contudo, a maioria do “demos” brasileiro entendeu isso, e muitos, dentre os quais me incluo, mesmo tendo críticas ao lulopetismo, não teve dúvidas e votou em Lula/13, que apenas corporificou uma coletividade que se deu conta de que não podia abrir mão de tudo que a democracia nos oferece e, na contramão, o autoritarismo nos subtrai.

Mas dias difíceis virão. As adversidades serão imensas. Em nome da Democracia, precisamos permanecer vigilantes. Aquela adesão às redes e, principalmente, às ruas deverá ter continuidade, pois ganhamos a batalha, não a luta, que, assim como o show, deve continuar.

Parabéns, “demos” brasileiro! Orgulhosamente, acabamos de ofertar a mais linda, emocionante e brava lição aos mais diferentes países do mundo, inclusive e principalmente aos EUA: como um povo, em pouquíssimo tempo, pode se reorganizar para barrar a chegada de um líder da extrema-direita ao poder máximo de uma República.  

Roberto Boaventura da Silva Sá é Dr. em Ciências da Comunicação/USP.

 

FONTE/CRÉDITOS: Roberto Boaventura
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