De olhos dourados, corpo esbelto, pequeno porte e pelagem escura, um gato-mourisco, também conhecido como jaguarundi, chamou a atenção ao ser fotografado em uma cena rara, quase como se estivesse posando, às margens de um rio em Porto Jofre, no Pantanal mato-grossense.
O registro foi feito há algumas semanas pelo líder de expedições guatemalteco Andres Novales. A imagem é considerada rara não apenas pela dificuldade de avistar a espécie, mas também pelo comportamento incomum do animal, que permaneceu à beira da água tempo suficiente para ser fotografado, mesmo com a aproximação de uma embarcação.
Ao MidiaNews, o professor do Instituto de Biociências da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Rogério Vieira Rossi, de 54 anos, explicou que, embora avistar o felino na natureza não seja algo inédito, o comportamento arisco da espécie torna os registros fotográficos especialmente difíceis.
“Esse tipo de registro é bem difícil de conseguir, bem difícil. Porque os felinos, de maneira geral, primeiro que eles têm mais atividade noturna e segundo que eles são bastante ariscos. Ao menor movimento perto deles, que eles percebam que estão sendo observados, a tendência deles é escapar, é sair. Então, aquele registro que foi feito dele [gato-mourisco] na margem de um rio e tal, realmente é um registro bem difícil de ser feito”, afirmou.
Ao compartilhar as imagens nas redes sociais, Andres relatou que já teve a sorte de avistar o gato-mourisco dezenas de vezes ao longo dos anos, em diferentes países da América Latina, incluindo o Brasil. Apesar dos encontros, havia conseguido fotografar a espécie apenas uma vez.
O segundo registro ocorreu durante uma expedição de barco em Porto Jofre, quando procurava uma onça-pintada. Embora não tenha encontrado o animal que buscava, o guia avistou, à distância, um pequeno felino escuro às margens do rio.
Inicialmente, imaginou se tratar de uma lontra-neotropical. No entanto, à medida que a embarcação se aproximava, percebeu que estava diante de um encontro muito mais raro do que esperava.

(Rogério Vieira Rossi é professor do Instituto de Biociências da Universidade Federal de Mato Grosso)
“Esses felinos são extremamente esquivos por natureza, e nós nos aproximamos de longe sem que ele fosse embora, o que me fez pensar que não poderia ser o que eu imaginava que fosse. Então, continuei com a ideia da lontra. Já estávamos bem perto quando finalmente vi o que era, e eu simplesmente não conseguia acreditar: um jaguarundi (também conhecido como gato-mourisco), relaxando na margem exposta à beira d'água, provavelmente bebendo”, escreveu o líder de expedições, em publicação traduzida.
O gato-mourisco possui ampla distribuição geográfica, sendo encontrado em todos os biomas brasileiros e em diversas regiões da América Latina. Apesar disso, a espécie enfrenta ameaças à sua sobrevivência e é considerada globalmente quase ameaçada de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).
No Brasil, o felino é classificado como vulnerável pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), categoria que indica um alto risco de extinção na natureza.
Segundo o professor Rogério Rossi, a presença do animal em diferentes ambientes pode transmitir a falsa impressão de que se trata de uma espécie abundante.
“Ele tem uma distribuição geográfica ampla, ele ocorre em todos os biomas do Brasil. E ele até é um gato que não é tão difícil, não é que não seja fácil, não é fácil, mas ele não é o gato mais difícil de ser observado. Mas isso passava até uma certa impressão de que ele era um gato que talvez não fosse raro, que ele fosse mais abundante”, explicou.
O biólogo esclareceu que essa impressão está relacionada ao comportamento do felino, que costuma circular por áreas de vegetação aberta e pode se aproximar de propriedades rurais, o que aumenta as chances de ser avistado.
“O fato dele, às vezes, ser mais observado é porque ele transita por áreas meio abertas. Se está num cerrado, que é uma área de vegetação aberta, ou mesmo na borda de uma área de mata que faz divisa com uma área de plantação, ele pode ser observado nessas áreas. Ele já foi observado em plantação de eucalipto, ele já foi observado em plantação de cana. Porque ele acaba transitando, ele fica, se abriga e se alimenta em áreas de mata nativa. Mas ele caminha por essas áreas mais abertas e aí acaba sendo observado, às vezes”, afirmou.
Apesar dessa ampla distribuição, Rossi destacou que o gato-mourisco apresenta uma densidade populacional extremamente baixa, o que reforça a raridade da espécie.
“A densidade populacional dessa espécie varia de 0,01 a 0,05 indivíduos por quilômetro quadrado. O que significa isso? Significa que em 100 quilômetros quadrados, você pode ter de 1 a 5 indivíduos de gato-mourisco”, explicou.
Para dimensionar essa raridade, uma área de 100 quilômetros quadrados equivale a aproximadamente 10 mil campos de futebol, considerando gramados de medidas oficiais de 100 por 100 metros como referência ilustrativa.
Isso significa que, em uma extensão territorial desse tamanho, a estimativa é de apenas um a cinco gatos-mouriscos, o que ajuda a explicar por que encontrar e fotografar o felino na natureza é uma experiência tão incomum.
A vulnerabilidade do gato-mourisco está relacionada principalmente à perda de seu habitat natural. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), o avanço do desmatamento para a expansão de áreas agrícolas e pastagens, além dos incêndios florestais, está entre as principais ameaças à sobrevivência da espécie, que tem o Brasil como um de seus principais territórios de ocorrência.
(foto reprodução) - Com base em dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a IUCN aponta que o Brasil já perdeu 41% de sua cobertura natural. O levantamento também indica aumentos de 14,2% e 25% no desmatamento nos períodos de 2020 a 2021 e de 2021 a 2022, respectivamente.
O biólogo Rogério Rossi explicou que, embora o felino possa ser avistado em plantações e outras áreas abertas, ele depende da vegetação nativa preservada para sobreviver.
“Porque eles [gatos-mouriscos] dependem de áreas de vegetação preservadas para abrigo e para alimentação. Então, como eu disse, eles já foram avistados em plantação de cana, já foram avistados em plantação de eucalipto, mas em ocasião em que ele está transitando. Se for uma área, por exemplo, muito devastada, que tenha uma vegetação nativa numa extensão muito pouca, ele acaba extinguindo localmente”, explicou.
Além da destruição do habitat, a caça e os atropelamentos também estão entre os fatores que ameaçam a sobrevivência da espécie e contribuem para a redução de sua população na natureza.
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