Uma cidade onde a verdadeira moeda circulante era o diamante, onde tudo se comprava com essa que é a pedra mais desejada do mundo.
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Onde lavava-se chão de cabaré com cerveja e se conquistava fortuna da noite para o dia.
Esse lugar é a Poxoréu do passado, que nasceu do diamante, e agora, sem o garimpo tenta encontrar caminhos para sua gente.
Poxoréu surgiu à margem do rio de igual nome, na esteira do garimpo de diamantes.
Desde o final do século XIX, aventureiros procuravam lavras nas altas cabeceiras do rio São Lourenço.
Mas, somente em 1924, foram encontradas as primeiras gemas que se tornaram atrativos para o povoamento da região.
Nos anos 1940, 50 e 60, a elite econômica e os novos ricos do garimpo de Poxoréu usavam o avião como meio de transporte.
A rota Cuiabá-Belo Horizonte-Cuiabá, operada pela extinta companhia Real Aerovias, fazia escalas na cidade com seus modernos bimotores DC-3.

O município vivia um período de opulência no ciclo do diamante.
Nas décadas de 1960 e 70, quando a tesouraria da agência do Banco do Brasil não dispunha de numerário para grandes saques, então comuns, o gerente recorria a um velho conhecido de todos, Prisco Menezes, um ex-garimpeiro que se tornou milionário emprestando dinheiro a juros.
Em meados da década de 1990, o diamante escafedeu-se e o pouco do que resta enfrenta o travamento do Ibama. Sem garimpo, não há onde trabalhar.
Por isso, há silencioso e permanente êxodo em busca de oportunidades.
Muitos fazem as malas e se mandam para Primavera do Leste e Rondonópolis, onde mão de obra ociosa é igual fantasma – pode até existir, mas ninguém vê.Localizada numa área acidentada, espremida entre morros e o rio Poxoréu, a cidade – que por meio século ostentou o título de Capital dos Diamantes – é uma sequência de ruas sinuosas permeadas por ladeiras.
Os garimpos espalhavam-se pelo município.

BOEMIA - Empurrada pela dinheirama de garimpeiros que bamburravam, nenhuma zona boêmia ganhou tanta fama em Mato Grosso quanto a Rua Bahia, no centro de Poxoréu.
No começo dos anos 1970, quando o garimpo estava no auge, mais de 20 boates mantinham acesas suas luzes vermelhas, com suas vitrolas no volume máximo ou ao som do maestro Marinho Franco.
Em frenesi, as mulheres dispostas a tudo, com suas roupas provocantes e carregadas com maquiagem que realçava a beleza e escondia a feiura.
O coração de Poxoréu batia mais forte na Rua Bahia, onde garimpeiros endinheirados lavavam o chão dos cabarés com cerveja Brahma gelada e pagavam o doce sabor do sexo com a moeda mais forte e conhecida por todos: o diamante.
À noite, a Rua Bahia fervilhava; na madrugada, mais ainda.
Onde se garimpa diamante a criminalidade é zero ou quase isso, ao contrário das praças das fofocas do ouro.
Com sua riqueza, seu sexo, sua farra e seu jogo, Poxoréu foi paraíso.
Quando o último boêmio saía do cabaré e as portas e janelas se fechavam no salão silencioso e impregnado pelo azedume da cerveja e do conhaque derramados, Poxoréu retomava o garimpo, para mais tarde, tão logo o sol se pusesse, voltar a viver gostosa noite de orgia.
As mulheres da Rua Bahia conviviam bem com a população e embarcavam para Cuiabá ou Rondonópolis nos ônibus da empresa Baleia junto com os demais passageiros.

Normalmente, saíam em pequenos grupos para as compras na "Loja Para Todos", do Bartolomeu Coutinho, o Bartô, em outros pontos do comércio ou em busca de uma agulhada de Benzetacil na farmácia de seo Amarílio de Britto, para curar incômoda gonorreia.
Algumas, mais atiradas, entravam na Matriz São João Batista, para preces a Jesus, o Senhor que perdoou Madalena, e onde, em 1972, o missionário italiano Attilio Giordani deixou seu coração sob o altar, ao fechar os olhos para sempre.
Os rufiões também se misturavam ao povo, entre os coronéis das quengas, fazendeiros, comerciantes, estudantes, recatadas senhoras, crianças, velhos e os demais que bebiam água.
O Cine Roma elas conheciam somente pelo lado de fora, porque a exibição dos filmes coincidia com o horário do trabalho da profissão mais antiga do mundo.Sem o diamante, a Rua Bahia morreu.
Seus cabarés viraram ruínas e as pedras de seu calçamento não escutam mais os ais do prazer, ouvem apenas o cortante silêncio sepulcral de uma triste cidade sem garimpo, sem zona boêmia, sem rumo.Mesmo que a cidade retome sua movimentação, dificilmente a Rua Bahia ressuscitará.
O sexo perdeu o quê de boemia, ganhou espaço entre a juventude com sua parafernália nas redes sociais.
O casamento já não é mais o mesmo. A vida mudou.
Falta agora a mudança de Poxoréu, ou melhor, seu reencontro com a vitalidade econômica para que seu povo tenha melhor qualidade de vida e sua força de trabalho encontre o que fazer perto de casa.
Garimpo não era a única aventura em Poxoréu.
Para o paulista Jubal Martins da Siqueira, ex-vereador e ex-pecuarista já falecido, em nenhum lugar do mundo se joga tanto quanto em Poxoréu.

O jogo a que Jubal se referia é o baralho, mesmo.
São muitos os tunguetes e casas onde as cartas correm soltas madrugadas adentro.
Jubal era falante sem perder a verdade nem abrir mão da seriedade. Em 1969, ele construiu na fazenda Lidianópolis, de sua propriedade, a primeira piscina da zona rural de Poxoréu.
A cidade ganhou projeção nacional por seu anual Encontro Nacional de Violeiros, que é um dos principais palcos brasileiros para apresentação dos mestres desse instrumento de cordas, que é uma das paixões da população, principalmente das mulheres e homens que vivem na zona rural ou nas pequenas e médias cidades.
FUMO - Antes da piscina de Jubal, em 1966, chegou ao distrito de Paraíso do Leste o mineiro descendente de italianos, José Nalon, acompanhado por familiares, e iniciou ali, naquele ano, o plantio da primeira grande lavoura de fumo para a indústria tabagista, que se tem registro em Mato Grosso.
O pioneirismo dos Nalon não parou por aí.
Trinta anos depois, Manoel Nalon, filho do fumeiro, liderou um movimento que resultou na implantação da cultura do maracujá no município, mas a mesma não prosperou.

Parte do município, no eixo da BR-070, é aproveitada para a agricultura mecanizada.
Nas regiões acidentadas, a pecuária é o destaque e Poxoréu tem grande rebanho bovino.
O boom do diamante passou e a economia se diversificou.
Com belezas naturais, Poxoréu começa a apostar no ecoturismo e no turismo de contemplação, mas sua rede hoteleira é acanhada.
A cidade perdeu o quê de aventura e lirismo que viveu até os anos 1970, quando o Posto Texaco, de Irmãos Oliveira, patrocinava horários nobres do serviço de alto-falante "A voz de Poxoréo"; e quando os ônibus da Transportes Baleia trafegavam pela MT-130, que não passava de um canudo de poeira rumo a Rondonópolis.
Até 1949, a ligação de Poxoréu com Rondonópolis era feita por uma estrada vicinal até a BR-364, no local conhecido por Pensão Seca (KM 300 da BR-163/364).
Cansado de esperar pelo governo, que não se interessava pela estrada para Rondonópolis, o mineiro Jacinto Silva rasgou 86 quilômetros de cerrado e mata ligando as duas localidades; nascia assim a rodovia MT-130.
A obra se arrastou por um ano e meio. Jacinto aproveitou as antigas trilhas e picadas.
No Governo Júlio Campos (1983/86), Mato Grosso pavimentou os 86 quilômetros da MT-130. Para homenagear o ex-prefeito de Poxoréu e ex-deputado estadual Osvaldo Cândido Pereira, o Moreno, já falecido, o governador denominou a obra de "Rodovia Deputado Osvaldo Cândido Pereira".

CULTURA – Poxoréu foi importante centro de extração de diamante e sua pecuária é uma das mais destacadas de Mato Grosso.
Mas, nem somente de economia vive o município.
O aspecto cultural nunca foi relegado e o ponto de encontro de escritores, intelectuais e pensadores é a União Poxorense de Escritores (UPE).
Um de seus escritores mais conhecidos é o professor Gaudêncio Amorim
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