Ao atingirmos a marca de 300 mil mortes ocasionadas pela Covid-19, o que dá ao Brasil a triste marca de primeira posição no mundo em mortes diárias por esta doença, se faz necessário tecer algumas reflexões.
1. Nunca foi uma gripezinha ou resfriadinho, tampouco nós estaríamos protegidos por sermos um país tropical, ou por termos um histórico de atleta, e essa doença não atinge apenas nossos velhinhos, que teriam que morrer, segundo o maior mandatário da nação.
2. Negar a ciência foi o maior erro. Apostar em teorias da conspiração tornou-se uma catástrofe anunciada.
3. Apostar em protocolos de tratamento precoce, com cloroquina, vermífugos e antibióticos, talvez com a finalidade de encorajar as pessoas a saírem em busca do seu sustento, desta feita contaminando-se, assim provocando a tal da “imunização de rebanho”. Foi uma aposta macabra, já que a letalidade dessa doença é de aproximadamente 5% dos infectados, sendo que para atingir a imunização de rebanho no Brasil seria necessário infectar 70% da população de 212 milhões (em torno de 150 milhões de pessoas) e provocar ou estimular a morte de 7 milhões de cidadãos (5% dos contaminados). Ou seja, um verdadeiro genocídio!
4. Mesmo após todas as evidências, de que a única saída era seguir as orientações da ciência, nossa diplomacia, que é altamente ideológica, não entrou na busca antecipada das vacinas, preferindo buscar spray milagroso, enquanto nosso Ministério de Ciência e Tecnologia não investiu em produção de vacinas próprias e também mergulhou no “milagre” do vermífugo Annita (Nitazoxanida).
5. Juntou-se à negação da ciência as teorias conspiratórias de que o vírus é chinês para quebrar a economia mundial, e que as vacinas viriam com nanochip, que alterariam o DNA das pessoas transformando-as em jacarés. Com estas tolices o Brasil ficou fora da compra de vacinas e hoje temos de correr atrás dos prejuízos. Para completar essa tragédia, tivemos a dança das cadeiras no Ministério da Saúde, num troca-troca de ministros alinhado ao obscurantismo, “conspiracionismo” e o próprio negacionismo que assola o Brasil.
Por fim, mesmo após todas estas constatações, um ano após a instalação da pandemia o Brasil ainda engatinha na formação de um comitê de crise para conduzir as ações com a finalidade de conter a mortandade crescente. Governadores e prefeitos agem cada qual por sua conta e risco, a nação não tem um comando, não tem um líder, não tem um estadista. O que mais se vê hoje é a procura frenética em aumentar o número de UTIs, garantir oxigênio e fármacos para intubação. Digamos que se amplie o dobro das UTIs existentes, se garanta o oxigênio e os fármacos para intubação. Estaremos aliviados – sabendo do estudo da UFMG de que quase 50% dos intubados vêm a óbito?
A ciência grita e apela para que se apliquem medidas preventivas e não intervencionistas no tratamento da Covid. A imunização é o caminho que preservaria vidas, vidas estas que poderiam ser as responsáveis por alavancar a economia - sem elas, não há economia.
Este quadro fica ainda mais estarrecedor com o número de mortes crescendo e o MS vacilando não dando números confiáveis sequer sobre a aquisição de imunizantes.
O novo ministro da saúde, se não quiser carregar nas costas o colapso na saúde que levaria a um colapso funerário, como advertiu Miguel Nicolelis, com a duplicação do número de vidas perdidas, precisa costurar um isolamento social efetivo como única alternativa para frear o avanço. Isolamento com renda digna para que os trabalhadores fiquem em casa, com a garantia de se alimentar nesses 27 dias mínimos que requer a situação atual.
Siga o exemplo da China, Vietnam, Austrália, Cuba, Nova Zelândia, que mesmo sem ter imunizado totalmente sua população vivem aliviados dos efeitos dessa pandemia.
(*) CARLOS VEGGI ATALA é Professor e Ex–Diretor do Procon Municipal de Cuiabá
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