No passado as mães, e os pais estavam “ali”, junto. De um tempo para cá estão quase sempre “lá”, distantes. A ausência faz falta em todos os momentos.
Houve um tempo em que pai e mãe eram um lugar. Não um intervalo na agenda, não uma função ou um contato no celular. Eram o “ali”. Ali na cozinha enquanto a lição se arrastava, ali na calçada cuidando do passeio com a bicicleta sem rodinhas, no campinho de futebol assistindo o jogo ou ali no sofá sem fazer nada de extraordinário, só estando.
Se a criança caía, sabia para onde correr. Se tinha medo, sabia onde se esconder. Se tinha uma alegria boba, daquelas que só fazem sentido aos sete anos, sabia onde despejar seu bom humor. Havia uma vigilância mansa, uma disponibilidade que não precisava ser convocada nem marcada. A gente crescia com a certeza de que, se gritasse, alguém responderia de perto. E essa certeza de proximidade era o nosso chão.
De um tempo para cá, esse chão se moveu. O “ali” virou “lá”. O que mudou não foi só a rotina; o “lá” de hoje nem sempre é físico. Tem pai e mãe dentro de casa e ainda assim longe, cada um no seu próprio “lá”. Lá no trabalho que nos segue até a mesa do jantar.
Lá no grupo de mensagens que não silencia. Lá na preocupação com a conta, com a meta, com a competição. Lá na tela que brilha mais do que o olho de quem está na nossa frente. Lá na exaustão que faz o corpo ficar, mas o pensamento permanecer longe.
E não foi por falta de amor. Foi por excesso de tudo. A gente não saiu do “ali” porque quis amar menos; saiu porque acreditou que, para amar mais, precisava produzir mais, entregar mais, prover mais. Sem perceber, trocamos o essencial pelo urgente e terceirizamos a presença.
Só que filho não entende terceirização. Filho entende presença ou falta. E a ausência, quando se instala, excui. Ela não faz falta só na formatura, no aniversário ou no dia em que a vida desaba. Faz falta na terça-feira comum, que é justamente onde a vida se decide. Faz falta na pergunta boba do meio da tarde, no medo que aparece às nove da noite, no riso que precisava de plateia e morreu no meio porque ninguém olhou.
Quando não se está “ali”, a criança aprende a se virar sozinha cedo demais. Aprende a não chamar, a não contar, a se contentar com migalhas de atenção e a tentar resolver sem ajuda o que precisa ser dividido. E o adolescente vira mestre em disfarçar: diz que tanto faz, que não precisa, que prefere o quarto. Mas todo adolescente que diz “tanto faz” está apenas testando para ver se alguém ainda considera ficar por perto.
Na infância, a ausência vira insegurança. Na adolescência, silêncio ou provocação. Na vida adulta, vira um buraco que a gente tenta preencher com desempenho, relacionamentos ou barulho e pode virar repetição, e nós, com isso, continuamos a viver “lá”.
Nem toda ausência, contudo, é igual. Ela se manifesta de formas diferentes, quase sempre fantasiadas de normalidade:
A primeira é a ausência nobre, aquela em que o corpo precisou ir. O pai que sai cedo e a mãe que segura múltiplas jornadas para dar um futuro melhor. Tem uma justificativa linda, mas o filho pequeno não entende planilha, entende colo. Ele ouve “é por você”, mas sente “é sem você”, e cresce aprendendo, sem querer, que amor se prova com sacrifício e desempenho, não com proximidade.
A segunda é a ausência distraída, a grande epidemia da atual geração. O corpo está presente no jantar ou na arquibancada, mas a mente está na tela ou na reunião de amanhã. É o “aham” dito sem olhar. Essa ausência confunde a criança, que se pergunta por que o adulto está ali, mas não está com ela. Para ser notada, ela aumenta o volume: provoca, adoece ou apronta para tentar fazer o adulto voltar do transe.
A terceira é a ausência condicional, a mais silenciosa. É quando a presença existe, mas depende de performance. Se o filho acerta, tem festa e colo; se erra ou dá trabalho, tem gelo e distância. A criança aprende que o amor precisa ser merecido e cresce ansiosa, tentando agradar a todos para não ser deixada de lado.
No fundo, seja nobre, distraída ou condicional, a ausência faz a criança se perguntar se o trabalho, o celular ou a performance são mais importantes do que ela. E este não é um texto para colocar mais culpa na mochila de quem já está cansado, mas sim um convite para olhar para o nosso endereço atual. A gente não pode desfazer as ausências que já aconteceram, mas pode decidir onde vai estar hoje.
Voltar para o “ali” não exige gestos heroicos, viagens caras ou largar o emprego. O “ali” não se reconstrói com discursos, mas com atos presenciais, pequenos e diários. Presença não é um evento; é um endereço para onde se volta um dia de cada vez.
Voltar significa praticar o olhar que ancora: dedicar, ao menos uma vez ao dia, dois minutos de inteireza para abaixar até a altura do filho ou filha, olhar nos olhos sem tela por perto e perguntar como foi o dia dele de verdade. Dois minutos inteiros valem mais que uma tarde de meia presença.
Significa praticar a escuta sem conserto: resistir à mania de dar palestras ou soluções prontas e apenas ouvir a história até o fim, acolhendo o que a criança, adolescente ou jovem sente.
Significa criar o chão comum: aqueles momentos sem propósito pedagógico ou cobrança, como cozinhar juntos, caminhar até a padaria ou conversar no carro, mostrando que a gente gosta da companhia dele sem que precise aprontar.
E, acima de tudo, significa praticar o reparo. Nós vamos falhar e escorregar para o “lá” todos os dias. A presença não exige perfeição. Reparo é voltar minutos depois, pedir desculpas por ter estado distraído e pedir para ouvir de novo. Quando um adulto pede desculpas, ele ensina que vínculo não é sobre nunca errar, mas sobre sempre saber voltar.
No fim, nenhum filho vai lembrar se a casa era grande, se a viagem foi cara ou se o tênis era de marca. Ele vai lembrar da sensação de ter sido visto ou de ter vivido com fome de atenção.
O “ali” não fechou. Ele continua de portas abertas, com cheiro de café e luz acesa no corredor. Ele não precisa que você seja impecável. Só precisa de uma decisão simples e corajosa, tomada hoje, mesmo com o cansaço e a rotina: a decisão de estar inteiro para sua criança, no tempo que você já tem.
Marcelo Augusto Portocarrero é engenheiro civil
Comentários: