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Quinta-feira, 09 de Julho de 2026
Incômodo silêncio

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Incômodo silêncio

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O telefone ficou em silêncio a manhã inteira.

Passei perto algumas vezes, olhei a tela apagada e segui adiante.

Nenhuma chamada, nenhuma mensagem.

O aparelho permaneceu ali, imóvel, enquanto o dia corria do mesmo jeito.

Almocei, caminhei pela casa e só no fim da tarde percebi que ele continuava exatamente como estava.

Senti, então, que estava aposentado como médico e velho também.

Por mais de meio século, o telefone foi para mim um importante instrumento de trabalho.

Como médico parteiro, ele me chamava o dia todo.

Também era por ele que se organizava minha intensa vida social.

Hoje, permanece mudo quase o tempo inteiro.

Como dizia minha mãe, Irene: ‘eu morri para o mundo’.

As pessoas na plenitude da vida profissional não têm tempo de atender telefone.

Essa função fica para os secretários.

Raramente falam com subordinados, a não ser quando o assunto lhes interessa.

Quando uma autoridade atende pessoalmente, sentimo-nos homenageados, de tão raro que é.

Hoje, meu telefone fica em silêncio quase o dia todo, fazendo-me companhia enquanto escrevo.

A cuidadora só fala comigo quando pergunto, e acho melhor assim.

Como a vida dá voltas em todos os setores da nossa existência!.

Faço uma regressão aos meus primeiros anos e, como num filme, chego aos dias atuais.

Tudo passou rápido como um sopro.

E o que passou, passou.

O telefone continua mudo, agora me incomodando.

Como seria bom se ele tocasse!.

O seu ruído seria entendido como coisa nova, sinal de alguém interessado em conversar comigo.

É só depois que perdemos os chamados do telefone, que passamos a valorizar o antigamente.

Geralmente é assim: damos mais valor ao que perdemos.

As perdas são sempre supervalorizadas.

Gostaria de terminar este texto com o meu telefone, hoje mudo, chamando sem parar.

Gabriel Novis Neves é médico, ex-reitor da UFMT e ex-secretário de Estado

FONTE/CRÉDITOS: Gabriel Novis Neves - foto reprodução
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